Uma das sensações que ainda me vão afligindo é a retração que ocorre antes da ação. A minha impaciência e necessidade de seguir em frente, às vezes, atrapalham o verdadeiro movimento de “seguir em frente”.

Os movimentos dos nossos corpos nos ensinam isso. Para saltar é preciso agachar, para empurrar é preciso puxar e que para andar é preciso haver algo que empurremos para trás a cada passo, como o chão. Para tudo, há um movimento que o precede, uma preparação, um passado, um relaxamento ou uma contração.

A preparação para mim nunca foi conhecida, sempre tive esse senso de prontidão que para muito me serviu e que de muito me protegeu, mas que, também, de muito me privou.

Os movimentos que fazemos na vida precisam de tempo e espaço para acontecer, fazer rápido e com os recursos que estão disponíveis, por vezes é necessário, mas raramente deixa-nos satisfeitos ou felizes sobre o resultado. Para mim, a melhor sensação é a de sentir que dei o melhor de mim. Não controlei tudo, houve e há espaço para o inesperado acontecer, mas como já tratei do bloqueava a minha mente há disponibilidade e flexibilidade para lidar com as surpresas.

Ouço muito sobre reduzir a velocidade nesta era. Sinto, realmente, a necessidade de caminhar cada vez mais lentamente e com consciência. Em um mundo que a pressa é valorizada a noção de velocidade da alma me deixa muitas vezes maravilhada.

Ao contemplar os tempos de preparação passiva que aconteceram na minha vida, nomeei-lhes Limbos. Em um deles, que precedeu a morte do meu pai, lembro-me de dizer a ele que este tempo de espera estava a dar-me raiva. Pois ao olhar para ele, encarava a impotência de nada poder ser feito para que ele pudesse melhorar. Lidar diariamente com impotência do mundo perante o seu estado de saúde e as dores físicas e emocionais que ele transparecia, por momentos me deixaram com raiva.

A consciência que trago agora acerca dos meus Limbos, permitem-me sentar presente e ancorada no vazio, no Aion e no silêncio, sem urgência no preenchimento de qualquer um destes espaços. Agora vejo que no silêncio, na ausência de fala ou/e de sons é quando e onde todos os movimentos importantes acontecem. É na presença (para nós) e por vezes em “presença alguma” (a sós) que há tempo e espaço para o encontro/integração consciente entre o físico e a alma. No tempo que paira entre “acontecimentos”, o “acontecimento algum”, é o lugar da orquestração de movimentos visíveis e invisíveis para que tudo se dê, exatamente como é.

Com a fluidez que abriga o meu coração, hoje abro-o a estar ou não preparado para o que vem. Humildemente ajoelho-me ao fluxo e a grandeza da vida. Dou-me permissão para que cada escolha seja feita com consciência e agência deste universo que sou. Permitindo as falhas e abrigando a imperfeição, gentilmente, crescerei.


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