Sinto que de tempos em tempos preciso de renascer. Como a primavera vem depois de um inverno, meu corpo grita por transformações.
Vivi 26 anos sem dar conta das coisas que despertavam irritação e raiva em mim. Vivi sem dar conta que tinha medo. Vivi sem abri espaço para o sofrer. Aos poucos o vento vai passando pelas minhas costelas e vai abrindo espaço, e a cada paço e auto-validação do sentir, elas vão voltando a me pertencer. Até já sinto que preciso do luto para realmente integrar todo o vivido.
Hoje, depois do retorno de saturno ter revirado meu mundo do avesso, os gatilhos emocionais parecem ligeiramente mais fáceis de identificar. Costumava fazer grandes voltas até perceber que certo limite que eu permiti que fosse transposto por alguém em determinada conversa ou situação, inseria o primeiro bloco na pilha de invasões que me levavam até a explosão. Que grande dádiva é poder estar consciente, presente e sentir como o meu corpo reage a cada momento. Não faz sentido para mim viver dependente da catarse possibilitada pelas explosões e implosões, esta energia me faz imensa falta no meu dia a dia. Sinto-me cada vez mais perto de reclamá-la.
O caminho que me faz sentido no momento passa pela aceitação plena do que sou e a partir daí aprender a sentar e tomar um chá contemplativo e presente com cada emoção que se desenrolar dentro de mim, pois a exclusão ou a repressão delas já me levaram a muito auto-ódio. Neste momento, quero me abrir cada vez mais ao que me é proposto pela vida, se vem é porque sou capaz de manejar e manejarei da melhor forma possível. PERFEITO ABSOLUTO não existe, existe o que é PERFEITO PARA MIM e para o EU quem sou neste momento.
Fiz a escultura de uma vagina em uma jornada terapêutica que participei. Naquele dia eu sentia-a tão forte dentro de mim, que precisou mesmo de sair. Imaginava-me a passar por ela enquanto a moldava. Para mim ela foi como um grito de independência, um reclamar da minha autonomia, da ‘guiança’ de mim mesma e da minha vida em autenticidade.
Sinto muito forte a entrega de todas as moedas após a vossa partida, queridos pai e mãe. Oh, como sou grata.
Aquela vagina em massa de modelar era o portal que eu precisava de passar para renascer. Renascer completamente minha e da forma como eu me queria apresentar e ser neste mundo. Alinhada com a vida, com os ensinamentos que quero manter e as formas como quero ser e fazer diferente, com as vidas que já vivi e com toda a sabedoria que existir nesta vida pode me oferecer. Eu vim com um propósito e há muito estou esquecida e desconectada dele. Uma vez disse a uma amiga, ‘Sinto que o pai se foi e o propósito veio!’.
Agora com uma lente um pouco mais ‘madura’, vejo mais nítido o que foi, o que se foi e o que está para vir. Decobri que ao limpar o olhar e enxergar o que está atrás, amplia a visão e a esperança no futuro. Ao olhar para minha infância vejo e ainda sou capaz de o sentir, havia tanto amor. A minha criança era feliz. Os limites que me eram impostos eram muralhas, que embora muito rígidas e até traumáticas de certa forma, possibilitaram que eu andasse livre, segura e feliz ao experienciar a natureza, a vida e o viver. A vida que me foi ofertada era e é magnífica. Sinto-me abençoada por poder transformar o meu olhar.


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